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terça-feira, 17 de abril de 2012

"TIJUCA"

- Bom dia, Tijuca!

- Olá, Tijuca!

- Hoje não vou deixá-la ir a pé pra casa, Tijuca.

- Tijuca, quer ir lanchar à Pastelaria Versalhes?



- Sei que gosta de fado “ao vivo”. Quer ir comigo ao Faia, Tijuca?





- Tijuca, hoje está um dia lindo. A Tijuca acha que gostaria de ir até à praia da Areia Branca no fim do trabalho?

- “As Árvores Morrem De Pé” está quase no fim da exibição. A Tijuca quer ver?



-Tijuca, o filme “ Lawrence da Arábia” tem uma óptima crítica. Eu gostava de ver mas também gostaria que fosse.



-Gosta dos Beatles, Tijuca? Trouxe-lhe um disco...





-Ouvi dizer que vai ouvir o Duo Ouro Negro às vezes. Não lhe apetece ir um dia destes, Tijuca?


E foi assim, durante 2 anos, todos os dias, mal chegava ao trabalho, que uns olhos da cor do sol e uma voz de mel, me cumprimentava.
Tijuca/Teresa?


Eu, naquela altura, apenas sabia que era um local algures no Brasil. Mas hoje sei que, além de ser no Brasil, é um bairro do norte cujo nome tem origem na língua tupi, entre a lagoa Tijuca e o maciço Tijuca/3ª maior floresta do mundo e local da mundialmente famosa escola de samba Tijuca.

- Tijuca, gostava que a minha Mãe a conhecesse…

- Eu….

- Mas quem é você, Tijuca?
- “É segredo
Não conto a ninguém.
Sou Tijuca.
Vou além"


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domingo, 1 de abril de 2012

ALFREDO ROQUE GAMEIRO - 1


Roque Gameiro, pintor aguarelista, foi um dos temas a que me dediquei nos últimos dias a pedido de uma amiga que vive em Madrid, cidade onde também deixou nome. Fica aqui um pouco da superficial pesquisa sobre o Homem/Pintor, natural como eu, da Beira Alta.
Roque Gameiro nasceu em Minde em 1864 e faleceu na Amadora em 1935.
Estudou na Academia de Belas Artes de Lisboa e frequentou a Escola de Artes e Ofícios de Leipzig, como bolseiro português, onde se dedicou a litografia.
Existem em Portugal 3 instituições com o seu nome, duas delas na Amadora - a Escola Roque Gameiro e a Casa Roque Gameiro, residência do artista e da família. A outra é em Minde, sua terra natal, o Centro de Artes e Ofícios Roque Gameiro que inclui o Museu de Aguarela Roque Gameiro, onde se encontra a maioria das suas obras.
Exerceu como Professor na Escola Industrial Príncipe Real e colaborou em diversas Publicações periódicas.
Foi eleito Membro da Real Academia de Belas Artes de S. Fernando, em Madrid e recebeu muitos prémios (Medalhas de Honra, uma de Ouro e um Grand Prix)
Não deixou apenas uma vasta coleção de obras mas também uma família de artistas (todos os seus 5 filhos).
O Pintor projetou o seu nome no Brasil, em Madrid e em Paris com temáticas sobre as Marinhas,o Espaço Urbano, o Mundo Rural, a Figura Humana/cenas do quotidiano e o Retrato (incluindo o seu autoretrato)
In Roteiro do Museu de Aguarela Roque Gameiro, 2009, Maria Lucília Abreu diz que “não são precisas muitas palavras para conhecer Alfredo Roque Gameiro. A sua vida e a sua obra falam por si e definem-no; a primeira decorreu linearmente e o virtuosismo do artista está patente em cada quadro que nos seja dado comtemplar."
Homem apegado aos valores tradicionais, fá-los reviver nas técnicas selecionadas, nas quais,artisticamente se projeta.”
“Temos com frequência, a sensação de contemplarmos, ao vivo, a paisagem perspetivada, quer seja no campo, à beira-mar".
 "Ocorre-nos dizer que Roque Gameiro tem a alma de um poeta que substituiu as palavras pela cor. É ele próprio que confessa: «tornei-me um carolla da aguarela».
E, continuando na sequência das palavras de Maria Lucília Abreu, diz que "apenas com 10 anos,veio trabalhar para Lisboa com o seu meio-irmão, um industrial de sucesso no ramo da litografia, nas oficinas da Companhia Nacional Editora." E que "o padre de Minde, contado pela irmã, Maria Roque Gameiro Martins Barata, dizia que "o rapaz só queria fazer bonecos”
Em modo de conclusão, diz que "Roque Gameiro contínua presente nas expressivas imagens dos campos verdejantes, dos rios de águas límpidas e claras, dos imensos areais, das ondas de múltiplos cambiantes e que neles se vêm espraiando,dos enormes rochedos de formas caprichosas e de surpreendentes combinações cromáticas, dos largos horizontes que a vastidão do mar tornou mais profundos, cenários onde, por vezes se inscreve a figura humana”.
E a CASA MUSEU, onde se desenvolvem imensas atividades culturais é um Imóvel de Interesse Público em vias de classifcação.Tem um notável conjunto de azulejos com carateríscas singulares, encontrando-se todo o interior do piso principal revestido de lambris de azulejos  brancos, dois medalhões representando alegorias à aguarela e litografia,técnicas de expressão plástica de Roque Gameiro.

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terça-feira, 27 de março de 2012

PELOS AÇORES


Era Verão e andávamos pelo Açores, Ilha de S. MIGUEL, em férias.
As estufas de ananases, pela sua abundância e tipicidade, fazem parte do roteiro de qualquer turista mesmo que não seja a primeira vez.
A Herdade de Augusto Arruda foi a preferida; ali ficamos a conhecer todas as fases do cultivo de ananás em estufas de vidro que é uma técnica única no mundo e típica da Ilha de S. Miguel. Podem ser visitadas livremente, dentro do horário de funcionamento, o que é muito útil.
A variante introduzida nos Açores foi originária da América Central e do Sul, na 1.ª década do séc. XIX. E é exactamente devido ao seu clima de origem que carece de ser cultivada em estufas. A exportação para o exterior foi rápida com declínio apenas durante a 2.ª guerra mundial, porque dois anos depois estava a fazer-se novamente. Na Primavera as estufas são caiadas de branco de modo a não permitir a entrada directa do sol - só precisam de calor. Para que as plantas floresçam todas ao mesmo tempo, faz-se uma fogueira com matéria orgânica que se introduz numa lata com buracos, a fim de sair o fumo que origina o fenómeno e deixa-se assim, com as portas fechadas durante toda a noite. Isto repete-se durante 18 meses, até os ananases estarem maduros.
Passear pela Herdade, entrar na loja de produtos típicos e provar o licor de ananás oferecido, completam a visita.
O ananás de S. Miguel atingiu já o estatuto de “recordação da Ilha”, para quem a visita.

E quem não se lembra do Kitt,o carro que sabia falar, andava sozinho e ajudava Michael Knight, “O Justiceiro”? Talvez muita gente o tenha esquecido, pois o valor do preço oferecido ao vendedor tem sido mais baixo do que seria de esperar. Era um Pontiac Trans Am de 1982 com imenso sucesso nos anos 80 que fez as delícias de muitos jovens e menos jovens através de habilidades feitas não pelos protagonistas mas pelo guião com a ajuda de efeitos especiais.

A dupla Michael Knight e o indestrutível e inteligente carro, juntos contra o mal, saltando edifícios e saindo ilesos de tiroteios e explosões…
Mas que espécie de lógica tem um assunto com o outro, perguntar-se-á com razão.
Toda!
Enquanto nós pais, andávamos entretidos com a história do ananás e a deliciar-nos com o respectivo licor, o Luís, de 6 anos, fazia de Kitt, saltando vários degraus de pedra que havia na Herdade junto à entrada da estufa.
Só não houve uma tragédia por acaso.



terça-feira, 20 de março de 2012

O JARDIM DA FANTASIA



Como disse aqui noutra ocasião, gosto de jardins. De jardins pequenos, personalizados, no prolongamento da casa de habitação.
Sem ele, jardim, olhando para ela, casa, parece que está faltando qualquer coisa - ao abrir a janela imagino-o com diferentes cenários de beleza, refrigerando a vida quotidiana.
Há já algum tempo e durante vários anos, tive a obsessiva ideia de querer adquirir uma concreta casa em Cascais, localizada numa zona alta, com um deslumbrante panorama de mar-baía-casario mais abaixo e que a insultuosa intromissão de um absurdo Shopping Centre não prejudicou para, no terreno circundante e em declive, arquitetar o meu jardim. Depois de ter feito investigações a nível de vizinhança e imobiliárias, soube que estava para ser vendida em leilão (pois tinha-se tornado propriedade do Estado).
 E fui sempre esperando, indagando…

 Mas passou mais de uma década e até hoje nada se alterou, a não ser a quase completa degradação do edifício.

Continuamos, então, a ter o lindo apartamento que por ela trocaria, também com um belíssimo panorama mas sem o “meu” jardim.

Porem, como a fantasia me diverte, imagino-o muitas vezes.
Adoro espaços em desníveis, com pedras naturais de vários tamanhos e plantas diversas intercaladas. A possibilidade de um canteiro à volta de um pequeno lago seria uma ideia. Tapetes de relva, fáceis de instalar e de manutenção reduzida a encontrarem-se com maciços florais, em vez da relva propriamente dita. Trepadeiras na entrada, que dão sempre dignidade à casa. Várias zonas floridas de divisões pequenas para dar mais amplitude, vasos com flores (poucos, pois precisam de maior atenção) e um toque campestre marcado por uma cadeira e um escadote para dar mais mobilidade às plantas dos cantos. Uma pequena horta ou canteiro com ervas aromáticas como cebolinho, funcho, hortelã, salsa, estragão, tomilho, coentros, segurelha, manjericão, orégãos, serpão, etc.
Não deixaria de ter também uma churrasqueira em pedra e mesa com bancos debaixo de um arco de rosas trepadeiras assim como uma casota para um grande cão de guarda.



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quarta-feira, 14 de março de 2012

HOMENAGEM A UM AMIGO

                                                                                                                                             
Um dia deu-me o sono como a qualquer criança. Fechei os olhos e dormi- Alberto Caeiro

O A. tinha vindo do Ultramar com tudo o que tinha de armas e bagagens - a mulher, duas filhas e um filho ainda crianças - e a possibilidade de trabalhar na profissão que exercia.  Conseguiu arranjar refúgio numa casa de 2 pequenas divisões.
Foi entretanto destacado para trabalhar como executivo único, na equipa de que eu fazia parte. E penso que, de acordo com a sua filosofia de vida, até não lhe deve ter desagradado a tarefa atribuída - gostava de ter o controlo de tudo o que acontecia em seu redor, de viver sem se preocupar muito com grandes enigmas, de não mostrar facilmente o que lhe ia na alma, de se dar bem com todo o género de pessoas, um pouco manipulador, sem dar espaço á monotonia, respeitador, apaixonado mas essencialmente virado para o companheirismo e relacionamentos.
O tipo de trabalho tinha um plano e objectivos bem definidos mas podia organizá-lo de acordo com as tarefas e a disponibilidade de cada dos grupos em que participava, de modo a apresentar os resultados só na data prevista. Adaptou-se sem dificuldade às várias entidades e pessoas envolvidas, assim como às normas pré-estabelecidas.  
Ia, portanto, tudo bem profissionalmente.
- Sabe que A. está internado no Hospital dos Capuchos?
  Foi-lhe diagnosticado um “neo” cerebral e vai ser operado.
- Mas assim, tão inesperado!

Passado um tempo, porque a operação pareceu não ter corrido mal, teve alta
A casa passou a ser mais pequena, quer pelo aparecimento da doença, quer porque os filhos iam crescendo e, de sexos diferentes, seria bom que existisse outra pequena divisão.
Como havia uma varandinha, lembrei-me de contactar a Cáritas para ajudar a fechá-la. Mas, arrastando-se no tempo,  não se interessou de todo…
Resolvi então expor o assunto a todas as pessoas com quem trabalhava e as que puderam e quiseram, contribuíram com um donativo. A varanda, depois de ter sido fechada, passou a ser o quarto do rapaz.

Eternamente grato com a solidariedade, tornou-se o melhor amigo em dedicação, afeição, estima - amizade feita de pedacinhos. Porque também eu, mais tarde, viria a experimentar desânimo e abatimento perante dois “neos” e ele nunca deixou de estar presente, puxando pela minha auto-estima e esperança.

Após muitos anos e depois de vários internamentos ao longo deles, deixou-nos.

Sei que no dia anterior quis dizer-me adeus para que eu nunca esquecesse:   "resistir sempre até deixar de ter força”
Mas já não era o tempo.


Ele e o meu filho “Luisinho”, como ele lhe chamava, eram também grandes amigos. Ainda pequeno, quando o jardim infantil fechava nas férias, ia algumas vezes comigo para o local de trabalho.
A., para compensar os efeitos das doenças, precisou sempre de caminhar bastante e aproveitava as grandes áreas que havia ali à volta para o fazer.
Um dia, fui encontrar os dois sentados num banco de pedra e o Luís, de 5 anos, a querer ficar descalço. Ao indagar o que se passava, verifiquei que os calcanhares estavam cheios de flictenas. 
Caminhou com ele o tempo todo “para A. não andar sempre sozinho”.

Alguns meses antes, houve também uns dias em que pintava os desenhos todos com cores muito escuras - preto, roxo, violeta, magenta, castanho, azul, verde - e ouvi alguém perguntar-lhe:

- Porque é que o Luizinho faz os desenhos tão escuros? Antes eram tão coloridos!
- Porque o Pai de A. morreu e ele está triste.

Dizia muitas vezes que eu devia ir ver a sua terra natal. 
E fui. Num cruzeiro, a caminho do Brasil. As fotos são de Cabo Verde.

 

Escrevo estas linhas para, muito singelamente, continuar a dar eco à enorme vontade de viver com que enfrentou os obstáculos.