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quarta-feira, 25 de julho de 2018

E O ECO RESPONDEU:




Os provérbios são frases e expressões curtas que transmitem conhecimentos e sabedoria popular sendo que, muitos deles, relacionados com aspectos universais da vida, se mantêm desde a antiguidade. Ricos em imagens, são quase todos de origem anónima e podem aplicar-se, pelo seu sentido lógico, a diversas situações de hábitos comuns.
Estão, por exemplo, associados à gratidão, à generosidade, à velhice, à solidão e à amizade, termos que tenciono utilizar no conteúdo deste post.

“A bondade e o perdão só fazem ingratidão”; "A gratidão é a memória do coração"; “A gratidão tem tanto de nobre como de vil a ingratidão”.

"O generoso prosperará; quem dá alívio aos outros, alívio receberá"

"A velhice é a segunda meninice"; "De velho se torna a menino"

“A solidão é o destino de todos os espíritos eminentes.”; “A solidão é um bom lugar para se visitar, mas não é nada bom para se lá ficar.”

“Não há pior inimigo que um falso amigo”; “ O vitorioso tem muitos amigos e o vencido, bons amigos.”

 Fui ao lugar onde nasci e perguntei:
 "Meus amigos, onde estão?"
E o eco respondeu:
 "Onde estão?"

Todas estas frases feitas “soam a verdade”. Porém, sendo regra, nem sempre é absoluta.

Aqui há dias, fui lanchar com as minhas amigas Manela e Micá. A  Micá, alguns anos mais velha do que eu e um pouco “mais baixa”, mantém-se genuína. A Manela, da minha geração, pelo contrário, tem vindo a sofrer alterações com perda de memória episódica, primeiro e de memória remota, mais recentemente. O discurso brilhante de outrora passou a ser repetitivo e entrecortado à procura das palavras, a orientação em espaços ou a escolha da ementa revelam-se mais difíceis e a noção de  autocrítica parece ter desaparecido. 
 Viúva há alguns anos de um marido apaixonado, pouco fala dele e, quando acontece, faz um breve silêncio (não sei se de nostalgia causada pela ausência, ou se pelo reviver de momentos passados).
- Sabes que o C. morreu?, pergunta. Têm que ir as duas almoçar a minha casa.
- Ó Manela, mas em casa estás tu o tempo todo. É muito mais agradável este ambiente com gente, movimento…
(e, mais ou menos de 10 em 10 minutos, fazia o convite como se fosse a primeira vez)
- Tou sozinha… balbuciou.

Ela que tem dois filhos (médico e engenheiro) a quem ofereceu uma boa escola e dedicou todos os momentos livres, quatro netos que transportou, alimentou e passeou durante anos no horário de trabalho dos pais, muitos vizinhos que auxiliou em tudo o que lhe solicitaram, amigos e colegas que recebeu frequentemente para jantar, pessoas várias  que ajudou a singrar na vida…está sozinha.

Quanta solidariedade, quanta disponibilidade, quanto desprendimento, quanta amizade... pagos com vil  ingratidão!

"Meus amigos, onde estão?"
E o eco respondeu: "Onde estão?"





Imagens Google

quarta-feira, 18 de julho de 2018

PASSAR


O passar transitivo
Directo e indirecto
Com suplemento
Ou o intransitivo
De sentido completo
Sem complemento
É mais imperativo
Do que um decreto

Passam as vidas
E os bens prós herdeiros
Passam os comboios
E os seus viageiros
Passam os rios
E mil aguaceiros
Passam sorrisos
Pelo rosto, matreiros.

E o ar em movimento
Agitando a dignidade
E a sombra da mentira
Escondendo a verdade
E as horas camufladas
De falsa realidade
E a razão de ser
Sem conformidade

Quase tudo passa: A tristeza, a felicidade, o tempo, as pessoas, as uvas, as páginas, a criança, o amor, a amizade, a morte e penso que até a saudade. 
Só não passam mesmo a dor e o que resta saber do que fica do que passa.


domingo, 8 de julho de 2018

PERCURSOS - TOLEDO



3 h 40 m (335,0 km) de EX-A1 e A-5 separam a minha aldeia, Cerdeira, de Toledo, capital da Espanha medieval até meados do séc. XVI e da comunidade autónoma de Castela-La Mancha, presentemente.


Andar por Espanha sem conhecer Toledo é perder a oportunidade de apreciar o cenário único de um conjunto de várias influências que aconteceram ao longo da história daquele País desde a origem de Toledo e da ocupação romana na região no século II antes de Cristo, até à passagem dos visigodos e dos árabes, à recuperação pelos espanhóis ou à cidade das três culturas, através de testemunhos monumentais  verdadeiramente notáveis.
Falar dela depois de a ter visitado, também não deixa de ser fascinante. Porém, porque tudo é considerável, faz-se apenas uma abordagem muito superficial de alguns lugares observados.

O Alcázar, o palácio de Carlos V, foi construído num dos pontos mais altos da cidade, ocupando o local onde antes existia uma fortaleza romana. Atualmente, abriga os escritórios do exército e um museu militar.

Ponte romana de Alcântara com 6 arcos assimétricos - entrada para a cidade

Situada numa colina sobre o rio Tejo, Toledo é uma histórica cidade-museu declarada Património da Humanidade em 1987. As suas muralhas abrigam uma riquíssima herança cultural, arquitectónica e artística proveniente das culturas muçulmana, cristã e judaica que ali conviveram em relativa harmonia deixando expresso um conjunto de influências medievais e renascentistas
As suas ruas estreitas e sinuosas entre casas, mesquitas, igrejas e sinagogas desordenadamente edificadas e bem conservadas são, por si só (para quem pode caminhar), um passeio inesquecível de história com mais de 2 mil anos. Parada no tempo, tranquila, limpa e cosmopolita é uma das cidades espanholas mais grandiosas em arquitectura. Foi ali que o grande pintor El Greco encontrou imaginação para retratar o místico e o religioso da época.

1- Sinagoga de Santa Maria la Plancha - Monumento Nacional
 2- Símbolos judaicos nas ruas onde residiram os judeus sefarditas, colocados pela comunidade judaica da Espanha

É na configuração urbana das ruas estreitas, tortuosas e compridas  que se refletem  as características da civilização muçulmana assim como na  Praça de Zocodover, de planta irregular construtiva, onde se concentra grande parte da actividade económica e social de Toledo

 Praça de Zocodover e Plaza Mayor de Toledo
                                                     Ruas de Toledo

A nossa "peregrinação", porque estava na hora do almoço, começou por procurar um restaurante típico numa das estreitas ruas, acessíveis à circulação automóvel, bem perto da Praça Zocodover - a gastronomia, em Toledo, oferece várias especialidades castelhanas.

Depois, porque não foi elaborado o itinerário, foi-se andando, um pouco à toa, vendo e fotografando, sem entrar em qualquer monumento (o tempo era escasso), entre as pequenas pausas necessárias.

Sempre a subir pelas estreitas ruas (acompanhados de algumas garrafas de água), foram-se descobrindo outras surpresas desde edifícios comuns a mosteiros, igrejas, sinagogas, museus, portas na muralha, miradouros deslumbrantes, artesanato, estátuas e miniaturas de D. Quixote/Sancho Pança em profusão, muitos restaurantes pequenos, uma babilónia linguística
 1- Casa de antiguidades 2- Museu de Santa Cruz 3- Janela
Miradouro del Valle e o rio Tejo (com alguns vestígios de uma antiga ponte?)
1- Ao fundo, a Igleja de Santiago del Arrabal do sec. XII, um dos mais belos monumentos mudejáres de Toledo
2- Torre da Igreja de São Tomé

A Catedral de Toledo, dedicada à Virgem Maria na Ascensão aos céus, estilo gótico de influência francesa (século XIII) tem as cenas da vida de Cristo esculpidas na pedra, que serviram de catecismo durante a Idade Média e é sede da Arquidiocese de Toledo

Algumas portas da muralha de Toledo
Mosteiro de San Juan de los Reyes, século XV, estilo gótico com influência espanhola

Lojas de artesanato

Escola de Arte - "perfectamente pensadas para la actividad docente" y diseñadas con meticulosidad para propiciar la concentración, sensibilización con las disciplinas de estudio y el mejor aprovechamiento de la luz.


1- Antigo Museu Nacional do Exército
2- Biblioteca de Alkazar, antiga residência dos Reis de Espanha

1- Alkazar é um palácio fortificado sobre a colina mais alta da cidade que domina o horizonte e toda a cidade. Construído pelo imperador Carlos V, é dos poucos edifícios sem grandes alterações desde essa data
2- Alkazar - fachada setentrional

… E muito mais haveria para ver numa superfície de apenas 232,1 quilómetros quadrados de área, com 83 459 habitantes (densidade: 359,6 hab./km² habitantes). Wikipédia, 2016.
Depois do Alcazar, porque visitá-lo é primordial, situado a 644 metros de altitude, só já permitia um bom relaxamento em qualquer sombra de esplanada a saborear um batido de frutos bem fresco e um expresso.

Era quase noite e o regresso a casa estava por fazer... um regresso que viria a ser bastante insólito. O GPS resolveu embrenhar-nos na Serra da Malcata por entre apertadas curvas e contracurvas, sem iluminação e sob um nevoeiro intenso, cerrado…
Uma aventura inesperada mas que, enfrentada com calma, também a sorte acabou por nos dar um “final feliz”.



quarta-feira, 4 de julho de 2018

O ENCONTRO






Hoje resolvi fazer uma surpresa à minha amiga I.M. que se enclausurou numa casa de repouso para, na altura, não se separar do marido “bafejado” por Alzheimer.

Foi há 14 anos que o Braemer, na Noruega, por entre braços de fiordes, cascatas e vilarejos nos aproximou, tanto na partilha de mesa, como nas conversas de bar, no deck ao sol ou nos mergulhos na piscina.

Lisboa tornou-se, depois, o ponto de encontro. 
Entretanto, A. adoeceu e I.M. ficou “prisioneira”, sem a colaboração de que precisava. Cansada e mais velha, optou por uma casa de repouso.

Menos frequente agora, o cavaqueio passou a ser lá. Até poderia não ser, sim. Porém, a I.M. começou a cegar e, presentemente, apenas me reconhece pela voz. O marido, “exonerado” pelos sentidos, já não caminha nem fala.

Diz-se que " Cada qual traça o seu destino de acordo com a sua vontade, os seus gostos, os seus ideais e os seus princípios morais.” Racional Superior - livro Universo em Desencanto

Não, ninguém acredita que a I.M. tenha escolhido aquele destino. A vida é mesmo feita de surpresas. Boas e más.
Fiel aos seus princípios, tem aceitado tudo estóica e resignadamente.

Mas hoje, a I.M. estava diferente – cansada, com edemas, parca nas palavras, apática, "desligada"...

“Só me apetece estar deitada. A Teresa desculpe”, disse.
“Prove um chocolate, I.”, retorqui ainda.
“Sim…”
Mas parte dele permanecia desfazendo-se entre os dedos de unhas bem cuidadas.

Talvez o destino lhe tenha traçado o fim da caminhada. Talvez não lhe ouça mais pronunciar o meu nome.

Ou talvez sim. Oxalá.


sexta-feira, 15 de junho de 2018

"DAR ESPAÇO"



Ser cruelmente
Indiferente
Exactamente
Simplesmente
Diferente

Não querer
Mais saber
O que fazer
Ou perceber
Um merecer

Só valorizar
E checar
O que interessar
Conservar
Pra continuar

Prioridade
À sinceridade
Cumplicidade
Verticalidade  
E singularidade

Segunda opção?
Não
A definição
Nesta aferição
É selecção






quarta-feira, 13 de junho de 2018

O CLIENTE



Era o que faltava o Estado não indemnizar o meu cliente”. “Isto não é a República das Bananas” (Celso Cruzeiro, advogado do ex-ministro do Trabalho e da Solidariedade, Paulo Pedroso).


O Estado português, por decisão do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem(TEDH), foi mesmo condenado a pagar 68.555 euros (503 euros/dia) de indemnização a Paulo Pedroso pelos quatro meses e meio que passou em prisão preventiva por causa do processo Casa Pia.
A Relação de Lisboa deu-lhe razão num recurso e mandou-o em liberdade mas foi acusado ainda de mais 23 crimes de abuso sexual. A acusação caiu na fase de instrução e não chegou a ser julgado. Porem, enquanto Carlos Cruz denunciado pela mesma vítima, foi condenado, Paulo Pedroso catapultou para funcionário do Banco Mundial em Washington.

A culpa é do Estado ou do MP? 
É dos cidadãos ou dos Magistrados? 
Da vítima e não do criminoso? 

Da República das Bananas é com certeza porque, insensível ao contribuinte, paga ao violador, à incompetência dos tribunais, aos Celso Cruzeiro e permite aplausos na Assembleia da República aos praticantes de actos indecorosos. 
  



 Veja-se um pouco do enredo desta novela:




Imagens  Google